Atletas de futebol 05/05/2013
Fisiologa do Exercício - Análise de distância percorrida e intensidade do jogo de futebol profissional

Claudio Pavanelli

Introdução
O desempenho nas modalidades coletivas é subdivido em componentes táticos, técnicos, físicos e psicológicos, ocorrendo sempre de modo conjunto, exigindo simultaneamente todos os fatores. O sistema tático de jogo deve ser levado em consideração as possibilidades de interação entre os membros da equipe e a tática é composto por ações do adversário e da própria equipe (individuais e coletivas). Individualmente, tática manifesta-se na escolha e aplicação dos elementos técnicos (fundamentos) e dependem diretamente do nível de condicionamento físico do atleta. Coletivamente, a tática apresenta-se como o sistema de jogo adotado determinando a distribuição dos jogadores na área de jogo e a suas funções em campo. Uma característica importante dos fundamentos técnicos é a relativa precisão com que devem ser executados e a conseqüente dependência de uma adequada capacidade física para realização e controle do movimento.

O conhecimento da estrutura competitiva dos jogos, os aspectos qualitativos e quantitativos de uma partida de futebol e a influência no sistema fisiológico dos futebolistas, é fundamental para se saber e qual a carga correta a ser solicitada de cada atleta, portanto uma individualização do treino pelas necessidades individuais e não pela função ou posição em campo.

Fisiologista Claudio Pavanelli durante treinamento do Flamengo-RJ
(Crédito da foto: Fla/Imagens) 

O futebol é uma modalidade coletiva caracterizada pelas constantes necessidades de execução de ações motoras com elevada instabilidade e imprevisibilidade, tornando uma exigência física acíclica, intermitente e intensidade variável, com exigência constante de contrações excêntricas e curtos espaços de recuperação; metabolicamente uma constante variação de solicitação aeróbia, anaeróbia lática e alática com uma interação entre as ações motoras (com e sem bola) coletivas e individuais e o sistema de jogo. Aproximadamente 88% de uma partida envolvem atividades aeróbias e os 12% restantes, atividades anaeróbias de alta intensidade, sendo os momentos decisivos de uma partida, portanto os mais importantes e decisivos.

Durante uma partida de futebol, a movimentação do atleta é complexa e variada composta por: andar, trotar, correr em velocidades média e alta, ficar parado, arrancadas explosivas, trocar de sentido e direção, disputar bola corpo a corpo, saltar, paradas bruscas, sustentar fortes contrações mantendo o equilíbrio e o controle de bola contra uma pressão adversária. Andar representa 40,4% - 36,5 minutos, posição estática (parado) 17,1% - 15,40 minutos, corrida em intensidade baixa 35% - 31,5 minutos e corrida em intensidade alta 8,1% (7,3 minutos).

A análise do jogo é uma ferramenta promissora para os estudos e melhor entendimento das necessidades para treinamentos mais adequados ao futebol, gera conhecimento aplicado, possibilitando um maior entendimento das variáveis identificadas como importantes na modalidade.

Nos últimos anos, a preparação física teve um crescimento devido ao apoio das pesquisas científicas e a aceitação da ciência do esporte, e a condição física do atleta de futebol teve um significativo aumento. O desempenho total de corrida durante um jogo aumentou muito com o passar dos anos, e as exigências sobre o desempenho da resistência e capacidade aeróbia aumentaram imensamente, supervalorizando a determinação e evolução do Consumo Máximo de Oxigênio (VO2 max.) e Limiar Anaeróbio ou Ponto de Compensação Respiratória.

Desde o ano de 1962 comprova-se um aumento médio anual de 10% na performance de corrida causando uma grande preocupação nas formas de se avaliar esta capacidade física de forma direta (ergoespirometria) ou métodos indiretos (Yo-yo test, 4000 metros entre outros), porém atualmente, outras valências como força e velocidade tem ganho maior importância devido ao aumento da intensidade que se pratica o jogo de futebol moderno. Podemos afirmar que para o futebol de alto rendimento moderno, existem valências físicas importantes (VO2 max., Limiar Anaeróbio etc.) e valências físicas determinantes (velocidade, potência, índice de fadiga etc.) e para um atleta em formação, deve seguir criteriosamente e respeitar a velocidade de maturação e desenvolvimento individual.

Treinamento com equipe do Flamengo-RJ na caixa de areia
(Crédito da foto: Fla/Imagens) 

Exigências físicas durante o jogo de futebol / Distância percorrida durante uma partida
A distância percorrida durante uma partida dependerá do nível de condicionamento físico e da qualidade do adversário, nível de competição, tática, importância do jogo, motivação, tipo de grama e condições ambientais. Em partidas de alto nível, ocorrem em média 1100 trocas de atividades e a distância percorrida com a bola varia de 0,5 a 3% do total e a distância total percorrida varia menos de 1 km de uma partida para outra, sendo a maior variação 1,7 km. No 2º tempo das partidas a intensidade do jogo reduz e a distância total percorrida diminui entre 5 a 10% comparado ao 1º tempo. Durante os 90’ de jogo, apenas 60’ são realmente de jogo. Desses 60’, os futebolistas de acordo com suas posições correm somente de 20 a 40% ou seja, de 12 a 24’, sendo uma média de 3 km de marcha e 7 km de corrida. Desses 7 km , 64% (4480 metros) são de corrida lenta e baixa intensidade com predominância aeróbia, 22% (1540 metros) de corrida com intensidade média intercalando metabolismo aeróbio e anaeróbio para ressintese de ATP e manutenção da atividade (cerca 80% Vo2 máx, entre 10 e 17 Km/h) e 14% (980 metros) de corrida de alta intensidade (entre 18 e 27 Km/h).

Em um dos maiores artigos de revisão sobre o futebol, verificou que jogadores de elite percorrem de 10 a 12 km por partida com média de 10 km, e os goleiros 4 km em média. A Premier League (Campeonato Inglês) e outras importantes Ligas apresentam distâncias de até 15 km. No campeonato dinamarquês, verificou que os futebolistas percorrem em média 10,8 km, com mínimo de nove e máximo de 14 km, goleiros 4 km. N o futebol brasileiro: zagueiros 8,8 km; laterais 9,5 km; volantes 9,5 km, meias 9,9 km, atacantes 8,2 km. Média de distância percorrida 9,3 km. No campeonato japonês: defensores 9303 metros, meio-campo 11601 metros, atacantes 10387metros.

Os laterais, normalmente apresentam condicionamento físico, para esta exigência física, acima da média, com capacidade aeróbia 15% maior em relação as demais posições percorrendo maiores distâncias com posse de bola (230 metros). A distância percorrida pelos meio-campistas é significativamente maior que a dos zagueiros e atacantes em valores médios encontrados na literatura. Os atletas de futebol que atuam no meio-campo ficam parados por 14% do jogo, significativamente menos que os zagueiros 21,7% e atacantes 17,9%. Os meio-campistas percorrem grande parte da distância total durante o jogo em baixa intensidade e os atacantes a maior parte do jogo em alta intensidade, sob forma de sprint.

Menos de 2% da distância percorrida por jogadores profissionais de futebol é com posse de bola. A intensidade do esforço de um futebolista durante a partida, depende do seu nível de condição física e de sua função tática na equipe. Defensores e atacantes percorrem aproximadamente a mesma distância, porém a distância foi significativamente menor que a percorrida pelos meio-campistas. Não há diferença entre atacantes, meio-campistas e defensores para corridas de alta intensidade, porém os meio-campistas executam mais corridas de baixa velocidade.

Esta exigência diferenciada aos atletas de futebol em deslocamento mais intenso dependendo da posição, deve ser analisada de forma ampla e sua aplicação, pois no futebol de alto rendimento, a semana de treinamento é composta por dois jogos, promovendo assim uma forma de solicitação específica em sua intensidade máxima, somado ao desgaste psicológico, climático e deslocamento (viagem). Assim, necessita-se de uma maior atenção para a forma aplicada de divisão de treinamento, atletas que foram para o jogo e participaram em sua maioria do tempo, atletas que permaneceram no centro de treinamento e os atletas que forma para o jogo, porém não participaram ou por pouco tempo estiveram atuando.

Pode-se concluir portanto que a forma mais específica e precisa de monitorar a carga de treinamento, assim como sua evolução, se faz pelas necessidades individuais de cada atleta, respeitando suas virtudes e aprimorando suas necessidades, juntamente com uma menor probabilidade de aparecimento lesões.

Atleta do Flamengo-RJ durante partida válida pela Copa do Brasil 2013
(Crédito da foto: Fla/Imagens) 

Análise do tipo de deslocamento durante a partida de futebol / Sprints
O esforço do atleta de futebol de alto rendimento está caracterizado sobretudo por esforços explosivos, onde esses são repetidos intermitentemente com curtos intervalos de recuperação. O jogo de futebol é uma sucessão de sprints (Cometti,1999 e 2002), com constantes trocas de sentido e direção, onde esses estímulos são na sua grande maioria em distâncias curtas 5 a 20 metros, com duração média de 2 a 4 segundos. Estes Sprints constituem 11% da distância total percorrida durante a partida (+ ou – 1100 m). Isso corresponde a 0,5 a 3,0% do tempo de bola em jogo.

A distância total percorrida em forma de sprints está situado entre 500 e 3000 metros divididos entre 40 a 100 sprints por jogo dificilmente ultrapassando 25 metros, frequentemente acelerações ultra curtas (5m) e curtas (entre 10 e 20 metros), com mudança de velocidade e direção a cada 5 segundos, caracterizam o jogo de futebol de alto rendimento.

A distância percorrida em velocidade máxima também diminui na segunda metade do jogo devido a fadiga e de outros fatores como os resultados parciais.

Respostas fisiológicas e hemodiâmicas à exigência do futebol
Os atletas de futebol de alto rendimento, durante uma partida apresentam FC de 150 a 190 bpm durante a maior parte do jogo, ficando abaixo de 150 bpm em breves períodos. estimando-se que a intensidade média durante uma partida é de aproximadamente 70% do consumo máximo de oxigênio. Apenas em 11% do tempo de jogo a frequencia cardíaca apresenta valores inferiores a 73% da FC máx, 63% entre 73 e 92% da FC max, e 26% valores superiores a 92% da FC max.

Os valores médios de frequência cardíaca registados nos meio campistas e atacantes são mais elevadas que os atletas de defesa, sugerindo que, na maior parte dos jogadores (exceto nos goleiros), o consumo de oxigênio, é em média superior a 70% do VO2 máx., com o valor próximo a 2,9 l/min para um jogador de 70 kg, com uma potência aeróbia de 60,00 ml/kg/min e conseguem manter uma velocidade superior a 14 km/h perto do limiar anaeróbio. Os valores de consumo máximo de oxigênio e de limiar anaeróbio, tem aumentado nos últimos 20 anos, justificando principalmente o aumento da necessidade de uma recuperação cada vez mais eficiente entre os estímulos de alta intensidade - Sprints.

Outro fator que reflete a exigência muscular é a quantidade de ácido láctico presente no sangue durante a partida. As concentrações de lactato variam muito durante uma partida entre 3 a 10mmol/l. Estas grandes diferenças de concentração são devido diferentes atividades efetuadas antes de se retirar as amostras sanguíneas e podem também ser influenciados pelo sistema tático adotado pela equipe.

Bibliografia de referência
Bangsbo J, Norregaard L, Thorsoe F Activity profile of competition soccer. Can J Sports Sci, 1991.

Bangsbo, J. Energy demands in competitive soccer. Journal of Sports Sciences, 12, s5-s12, 1994.

Bangsbo, J. The physiology of the soccer, with special reference to intense intermittent exercise. Copenhagen, August Krogh Institute/University of Copenhagen, 1994.

Bangsbo, J. “Entrenamiento de la condición Física En El Fútbol”; Editorial Paidotribo, 1996.

Barros, r.m.L. et al. Analysis of the distances covered by first division Brazilian soccer players obtained with na automtic tracking method. Journal of Sports Science and Medicine, v.6 p. 233-242, 2007.

Chiari, R.; Mello, A.C.; Faleiro, M.; Kalil, L.O.; Neves.O.; Brandão, V.; Sousa, R., Braga. W. and Pavanelli, C.; Diferenças das categorias sub-18 e sub-20 em velocidade de sprints, potência máxima e índice de fadiga em atletas de futebol. 33º Simpósio Internacional de Ciências do Esporte 2010 – Anais.

Cometti, G. La preparación física en el fútbol. Barcelona: Editorial Paidotribo, 2002.

Ekblom, B. Applied physiology of soccer. Sports Med., 1986.

Faina, M., Gallozi, C., Lupo, S., Colli, R., Sassi, R.; Marini, C. Definition of the physiological profile of the soccer player. In: Reilly, T.; Lees, A.; Davids, K.; Murphy, W. J. (eds.) Science and football (Proceedings of the First World Congress of Science and Football) Liverpool: E&FN Spon, 1988.

Franks, A.M., Williams, A.M., Reilly, T.; Nevill, A. Talent identification in elite youth soccer players: Physical and physiological characteristics. Journal of Sports Sciences, London, v. 17, p. 812, 1999.

Gomes, P.S.C.; Monteiro, W.D.; Santos, T.M.; Maciel, T.T.; Soares, J. Physiological and morphological characteristics of the 1994 Soccer World Cup champions. Medicine and Science in Sports and Exercise, 27, 5, S25, 1995.

Impellizzeri, F.M.; Marcora, S.M.; Castagna, C.; Reilly, T.; Sassi, A.; Iaia, F.M.;Rampinini, E. Physiological and performance effects of generic versus specific aerobic training in soccer players. International Journal of Sports Medicine, 27, 483-492, 2006.

Maclaren, D.; Davids, K.; Isokawa, M.; Mellor, S.; Reilly, T. Physiological strain in a 4-a-side soccer. In: Reilly, T.; Lees, A.; Davids, K.; Murphy, W. J. (eds.) Science and football (Proceedings of the First World Congress of Science and Football) Liverpool: E&FN Spon, 1988.

Malina, R. M., Pena Reyes, M. E., Eisenmann, J. C., Horta, L., Rodrigues, J.; Miller, R. Height, mass and skeletal maturity of elite Portuguese soccer players aged 11-16 years. Journal of Sports Sciences, 18, 685-693, 2000.

Mohr, m. Krustrup, p. Bangsbo, j. Match performance of high-standard soccer players with special reference to the development of fatigue. Journal of Sports Science, v. 21, p. 519-528, 2003.

Raven, P.B., Gettman, L.R., Pollock, M.L.; Cooper, K.H. A physiological evaluation of professional soccer players. British Journal of Sports Medicine, 10, 209-216, 1976.

Pavanelli, C.; Chiari, R.; Faleiro, M; Mello, A.C.; Analise comparativa entre testes específicos de corridas anaeróbia de velocidade em atletas de futebol sub-20. 22º Congresso Brasileiro de Medicina do Exercício e do Esporte 2010 - Anais.

Pavanelli, C.; CHIARI, R.; Mello, A.C.; Faleiro, M.; Kalil, L.O.; Neves.O.; Brandão, Braga. W.; V.; Sousa, R. Analise comparativa de ck, lactato e índice de fadiga, entre testes de corridas anaeróbias de velocidade em atletas de futebol. 33º Simpósio Internacional de Ciências do Esporte 2010 – Anais.

Pavanelli, C.; Testes de avaliação no futebol. In: Barros, T.L., Guerra, I.; Ciência do Futebol. São Paulo: Manole, 2004: 67-83

Reilly, t., drust, b., clarke, N. Muscle fatigue during football match-play. Sports Medicine, v. 38, p. 357-367, 2008.

Shephard, R .J. (1999) Biology and medicine of soccer: an update. Journal of Sports Sciences

Stolen T. Physiology of Soccer. Sports Med 2005

Williams, A.; Hodges, N.J. Practice, instruction and skill acquisition in soccer: challenging tradition. Journal of Sports Sciences, 23, 6, 637-650, 2005.

Weineck, J.Futebol Total: O Treinamento Físico no Futebol, Phorte, 2000.