Atletas de futebol 15/02/2012
Os efeitos da exposição à altitude na performance humana e no desempenho físico

Claudio Pavanelli (Colaborou: Leonardo Acro)

Tema bastante discutidos entre profissionais da área de desenvolvimento da performance humana é a influência da exposição de um atleta a condições climáticas e ambientais desfavoráveis - altitude, climas quentes ou frios, poluição, etc - no nível de condicionamento físico e resultado do desempenho durante uma partida de futebol.

Falando especificamente sobre altitude e os efeitos causados no corpo humano em repouso e durante uma partida de futebol, devemos em primeiro lugar entender uma série de fatores que irão interferir diretamente. Idade, nível de condicionamento físico e individualidade biológica são facilmente entendidos como fatores determinantes. Porém, o tipo de exercício e forma de atividade física parece ainda causar muita confusão entre os profissionais da área.

Atividades cíclicas e contínuas de média e longa duração, como a corrida e o ciclismo - onde apenas o componente físico interfere de forma determinante no resultado –, são descritas na literatura que há influência da altitude devido os efeitos na limitação do transporte e oferta de oxigênio para os músculos.


Fisiologista Claudio Pavanelli durante pré-temporada do Flamengo-RJ na altitude da Bolívia 

Porém, para atividades acíclicas, intermitentes, com exigência constante de contrações excêntricas da musculatura e metabolicamente anaeróbio - alático e lático -, dependendo que o EPOC seja muito eficiente entre os estímulos de alta intensidade para a manutenção do estímulos de velocidade (manutenção de alta intensidade prorrogando a fadiga), os efeitos da altitude no atleta ainda devem ser bem esclarecidos.

Os efeitos agudo e crônico, assim como os sintomas clínicos e efeitos na performance da aptidão física do jogador de futebol, também são pontos fundamentais para se individualizar e entender profundamente o tema altitude.

Em locais com altitudes elevadas a oferta de oxigênio é exatamente a mesma que a existente em locais ao nível do mar - 20,93% do ar atmosférico é composto por O2 -, mudando apenas a pressão barométrica. A camada de ar entre a atmosfera e locais ao nível do mar é maior 760 milímetros de mercúrio (mmHg) quando comparada à camada de ar entre a atmosfera e locais elevados, provocando maior pressão sobre o gás - oxigênio, gás carbônico, etc. – e causando menor número de moléculas de oxigênio por unidade de volume. Ou seja, menor pressão parcial de oxigênio (pO2) interferindo na absorção do O2 na célula.

Muitos trabalhos demonstram a diminuição do consumo máximo de oxigênio em ambientes elevados quando comparados ao nível do mar. A diminuição depende diretamente da altitude, individualidade e tido de atividade. Estes mesmos estudos são comumente analisados através de atividades cíclicas e contínuas.

Quando temos que desenvolver trabalhos específicos com atletas de alto rendimento de características acíclicas e intermitentes – como futebol, esportes de combate, basquete, etc - devemos nos preocupar MUITO mais com a recuperação entre os estímulos de alta intensidade (EPOC), que tem uma relação direta com a treinabilidade (nível de treinamento e aptidão física) e com as adaptações musculares para uma melhor absorção e captação de O2 e nutrientes.

Portanto, não depende apenas de uma melhor oferta de O2 e sim de uma melhor catação e utilização do O2 a nível muscular (célula), que depende diretamente do treinamento e exigência muscular adequada para uma adaptação local.

A concentração e treinamentos na altitude desenvolvem uma série de alterações fisiológicas, principalmente melhorando o transporte de oxigênio. Mas devemos lembrar que a melhora do transporte de O2 é apenas um dos três fatores que limitam a capacidade aeróbia, também conhecida como sistema oxidativo em esforço. A experiência em treinamentos específicos e técnico/táticos com identificação da diferença da velocidade da bola parece ser de fundamental importância, já que ajuda o atleta a eliminar o efeito surpresa.

Os principais ajustes em resposta à exposição aguda à altitude são a hiperventilação e um maior débito cardíaco - em repouso e em exercício submáximo. Já os ajustes à exposição mais prolongadas à altitude ocorrem de forma mais lenta, buscando a tolerância à hipóxia, o equilíbrio ácido-básico dos líquidos corporais, um aumento no número de hemácias e uma maior concentração de hemoglobina.

Os efeitos da aclimatação variam conforme a altitude e a individualidade biológica. O período necessário para a aclimatação é muito controverso, já que são muitos os fatores que influenciam diretamente na velocidade de aclimatação e, na maioria das modalidades esportivas, não se dispõe deste período. Assim, faz-se necessário a utilização de estratégias para minimizar os efeitos da altitude, o que podemos chamar de adaptação.

Texto do fisiologista Claudio Pavanelli ganhou destaque no jornal diário Lance!

O glicogênio é o principal substrato energético utilizado durante a realização de atividades físicas na altitude por ser muito eficiente na resíntese da molécula de ATP por litro de oxigênio consumido.

O stress sofrido pelo organismo durante a prática da atividade física exige uma série de reações para os ajustes necessários (metabólicos e sistêmicos) e aumenta quando exposto a ambientes desfavoráveis (frio, calor, altitude, etc) e podem ser melhor controlados quando aliados a uma alimentação e suplementação adequada para cada situação e característica individual.

A nutrição é de grande importância para minimizar os efeitos da altitude, que são: a redução do apetite; alteração no metabolismo (causando redução da massa corpórea); e alteração no pH sanguíneo decorrente do aumento do lactato. Com o aumento da taxa metabólica basal e redução do apetite se faz necessário um aumento de carboidrato na alimentação para evitar a degradação do glicogênio muscular e o aumento do lactato.

A suplementação de enzimas que auxiliam na digestão dos macronutrientes e micronutrients auxilia para as vitaminas que atuam na metabolização do carboidrato e são de grande valia para reduzir os efeitos, assim como suplementação de carboidratos em forma liquida, promovendo a hidratação e fornecimento de energia, juntamente a uma alimentação adequada para a situação de stress causado pela altitude.

Pode-se creditar a alteração de pH a uma redução do apetite e o aumento da taxa metabólica basal (TMB). Para reduzir este fenômeno, o fracionamento das refeições em sete ou oito partes é fundamental - desjejum, colação, almoço, lanche da tarde 1, lanche da tarde 2, jantar, ceia e mais um lanche antes de dormir.
-Desjejum: Frutas, cereais, mel, geléias, iogurte desnatado, suco, e queijos reduzidos de gordura.
-Colação: Frutas, geléias, cereais, oleaginosas e torradas, sucos.
-Almoço: Vegetais, Hortaliças, grãos integrais (arroz, quinua, amaranto), leguminosas, ovos, peixes ou frango.
-Lanche da tarde 1: Frutas, cereais, mel, geléias, suco, e queijos reduzidos de gordura.
-Lanche da tarde 2: Torradas e suplemento a base de carboidrato.
-Jantar: Vegetais, Hortaliças, grãos integrais (arroz, quinua, amaranto), leguminosas, peixes ou frango.
-Ceia: Frutas, cereais, mel, geléias, iogurte desnatado, suco, e queijos reduzidos de gordura.
-Lanche noturno: Frutas e oleaginosas.

A necessidade da alimentação e suplementação deve ser respeitada de acordo com a individualidade de cada atleta.

Um treinamento realizado de maneira correta, ao nível ideal de altitude, com um acompanhamento nutricional e respeitando e monitorando a intensidade adequada de cada sessão do treinamento, certamente fará o diferencial para o desempenho e performance dos atletas durante a partida. Os riscos existem, mas podem ser controlados, minimizados e até anulados quando tomadas as devidas precauções.

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